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Será que o cancro era realmente menos provável num mundo pré-industrial?

Antes do tabaco e das fábricas, a taxa de cancro na Grã-Bretanha estava estimada em 1%. Mas um novo estudo arqueológico chegou a uma conclusão diferente.

PUBLICADO 18/05/2021, 12:34 WEST
Um fresco italiano do século XV, de um pintor anónimo, representa “O Triunfo da Morte”. As ...

Um fresco italiano do século XV, de um pintor anónimo, representa “O Triunfo da Morte”. As doenças medievais eram geralmente atribuídas a infeções, desnutrição e ferimentos sofridos em guerras ou acidentes.

FOTOGRAFIA DE WERNER FORMAN ARCHIVE, BRIDGEMAN IMAGES

Hoje, estima-se que mais de metade de todos os britânicos sejam diagnosticados com cancro durante a vida. Contudo, as evidências arqueológicas de eras anteriores há muito que indicam que apenas 1% dos ingleses pré-industriais padeceram desta doença devastadora.

Agora, uma nova investigação sugere que este número pode ter sido demasiado conservador.

Num estudo publicado recentemente na revista Cancer, arqueólogos usaram ferramentas modernas de deteção de cancro em ossos centenários para determinar que a incidência de cancro na Grã-Bretanha pré-industrial pode ter sido pelo menos 10 vezes superior ao que se pensava anteriormente.

O estudo foi liderado por Piers Mitchell, da Universidade de Cambridge, que divide o seu tempo entre investigação de paleopatologia no departamento de arqueologia da universidade e os hospitais do Serviço Nacional de Saúde do país, onde realiza cirurgias ortopédicas em pacientes com cancro. Com base na sua experiência com os pacientes da atualidade, Piers foi sempre muito cético em relação às investigações antropológicas que sugeriam que a incidência de cancro nas populações britânicas pré-industriais era muito menor do que é atualmente, devido em grande parte aos níveis significativamente menores de cancerígenos ambientais.

A Grã-Bretanha pré-industrial não estava propriamente livre de cancerígenos: as pessoas consumiam álcool regularmente, estavam expostas aos poluentes expelidos pelo carvão e lenha e enfrentavam o risco de mutações celulares à medida que envelheciam. Mas a ameaça de cancro aumentou exponencialmente quando cancerígenos como o tabaco (introduzido pela primeira vez na Grã-Bretanha no século XVI) e a poluição provocada pelas atividades industriais (a partir do século XVIII) foram introduzidos na vida quotidiana.

Cancro medieval: corpos

Alguns dos indivíduos no estudo estavam em sepulturas medievais no local do antigo hospital de St. John Evangelist em Cambridge, no Reino Unido.

FOTOGRAFIA DE CAMBRIDGE ARCHAEOLOGICAL UNIT, ST JOHN'S COLLEGE

Uma visão superficial

Os estudos anteriores sobre as taxas de cancro nas populações pré-industriais baseavam-se principalmente em avaliações visuais de restos de esqueletos, que procuravam lesões características que indicavam a disseminação de determinados tipos de cancro.

Piers acredita que essa é a razão pela qual a taxa de cancro na antiguidade foi subestimada. A maioria dos cancros começa nos tecidos moles, e os que se propagam aos ossos fazem-no a partir da medula óssea para fora. Portanto, olhar apenas para a superfície externa do osso não revela toda a verdade.

Para identificar melhor os possíveis cancros em restos humanos antigos, a equipa usou as mesmas ferramentas que Piers usa para diagnosticar cancro nos ossos de pacientes da atualidade – tomografias computadorizadas e raios-x – para analisar 143 esqueletos adultos de seis cemitérios medievais, todos localizados em Cambridge, Inglaterra, e variando desde o século VI até ao início do século XVI.

O tamanho da amostra foi limitado pela qualidade de ossos disponíveis, diz Piers: “Quando ficamos no solo durante 500 a 1.000 anos, os nossos ossos tendem a desintegrar-se ou ficam danificados pelas raízes de árvores ou por roedores.” Piers concentrou-se nos esqueletos com pélvis, coluna vertebral e fémures intactos – áreas de muito fluxo sanguíneo onde as metástases ósseas são mais comuns.

Cancro medieval: osso

Uma seta indica uma lesão cancerígena na espinha dorsal de um indivíduo medieval. Os investigadores concentraram-se nos esqueletos com pélvis, coluna e fémures intactos – áreas com grande fluxo sanguíneo onde as metástases ósseas são mais comuns.

FOTOGRAFIA DE JENNA DITTMAR

A equipa só fazia diagnósticos de cancro se a avaliação de Piers sobre as evidências combinadas de tomografia computadorizada e raios-x correspondessem à opinião de Alastair Littlewood, radiologista do Hospital Peterborough City. Esta abordagem de duas camadas descartou quase todos os esqueletos. No final, a equipa detetou cancro nos ossos de cinco dos 143 indivíduos.

Este número, porém, muito provavelmente não contabiliza todos os casos de cancro possíveis na população de teste: apenas 33% a 50% das mortes por cancro modernas envolvem disseminação até aos ossos, e as tomografias computadorizadas só detetam cancro nos ossos em cerca de 75% das vezes. Quando os investigadores aplicaram estas restrições aos esqueletos medievais, extrapolaram que entre nove e 14 por cento dos britânicos pré-industriais provavelmente tinham cancro – uma estimativa dez vezes superior ao número anterior de cerca de 1%.

Sem a possibilidade de usar exames sanguíneos e biopsias para descartar outras doenças, também não há forma de saber se todas as lesões ósseas identificadas no estudo eram resultado de cancro. E como o estudo foi realizado com espécimes de uma pequena área geográfica, não representa necessariamente toda a Grã-Bretanha medieval. Mas, de acordo com Piers, Cambridge era “muito comum” para uma cidade britânica da época.

A realidade complicada das doenças pré-industriais

manual europeu do século XIV

Esquerda: Um manual europeu do século XIV, o Tacuinum Sanitatis, descreve tratamentos para doenças. Nesta imagem, mulheres colhem sálvia.
Direita: Maçãs colhidas para tratar doenças nos tempos medievais, de acordo com o manual Tacuinum Sanitatis do século XIV.

FOTOGRAFIA DE BRIDGEMAN IMAGES

Este novo estudo coloca em questão o estereótipo histórico das doenças medievais atribuídas a infeções, desnutrição e ferimentos sofridos em guerras ou acidentes.

“Este é um grande passo na investigação de bioarqueologia e paleopatologia”, diz a bioarqueóloga Roselyn Campbell, que dirige a Organização de Pesquisa Paleo-oncológica, uma parceria de académicos que estuda o cancro na antiguidade. (Roselyn não participou no novo estudo.)

Roselyn diz que, apesar de um número crescente de arqueólogos ter acesso a máquinas de raios-x, o subfinanciamento e os desafios logísticos tornam os tomógrafos inacessíveis para a maioria dos investigadores. Roselyn espera que mais colegas seus tirem proveito desta tecnologia em particular.

“Só nas últimas décadas é que os estudiosos começaram a investigar seriamente as evidências de cancro no passado.” E embora Roselyn alerte que não se deve usar apenas um estudo para inferir de forma ampla sobre a incidência de cancro no passado, a bioarqueóloga também salienta que os investigadores podem usar os métodos de Piers Mitchell para explorar cancros na antiguidade em amostras maiores e em zonas mais amplas no espaço e no tempo.

Piers está entusiasmado com as implicações que o estudo pode ter para a medicina moderna. Os cientistas reconhecem agora a forma como os cancerígenos como o tabaco e o fumo das fábricas e dos automóveis nos afetam. Mas perceber como é que o cancro afetou uma sociedade pré-industrial pode ajudar futuros investigadores a quantificar como é que os produtos cancerígenos mudaram a saúde humana. “Enquanto médico, é útil ter alguns pontos de dados ao longo de muito tempo para ver se a prevalência de cancro está a aumentar com determinadas taxas. Até que ponto a remoção destes cancerígenos podia ter um impacto?” Piers diz que esta pesquisa também pode ajudar os cientistas a compreender melhor os impactos dos cancerígenos não industriais, que incluem radiação solar, chumbo, incêndios em habitações, vírus e parasitas.

Medicina medieval: carta de tarot

Uma carta medieval de tarot, os Três Cálices, mostra um médico ao lado da cama de um paciente. Em geral, presume-se que o cancro era uma doença rara na Europa medieval.

FOTOGRAFIA DE BRIDGEMAN IMAGES

Ambos os investigadores salientam que nem todos os cancros são provocados por agentes cancerígenos como o tabaco ou poluentes industriais – a idade, genética e mutações aleatórias também podem desempenhar um papel. “Se eliminássemos toda a poluição, todo o fumo, isso iria diminuir o cancro, mas não faria com que desaparecesse”, diz Piers. No entanto, a paleopatologia em conjunto com a medicina moderna podem um dia “ajudar a quantificar com que grau determinadas ofensas ao nosso corpo podem aumentar ou diminuir o risco de cancro”.

Mesmo que não seja esse o caso, diz Roselyn, vale a pena continuar a tentar diagnosticar cancros do passado. “Existirá sempre algum nível de incerteza, e isso não faz mal. Precisamos de reconhecer que nem sempre iremos ter uma resposta definitiva.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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