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Esta região pouco conhecida pode ter os melhores vinhos de Itália

Em Friul, o vinho branco é a especialidade, mas há muito mais para descobrir nesta região que faz fronteira com a Áustria, a Eslovénia e o Mar Adriático.

PUBLICADO 28/05/2021, 11:59 WEST
Friul-Veneza Júlia

O sol de final de tarde banha as vinhas numa encosta em Friul-Veneza Júlia, Itália.

FOTOGRAFIA DE THOMAS LINKEL, REDUX

Estávamos a meio da tarde de um dia ensolarado de outono quando entrei pela primeira vez na Enoteca di Cormons, na esperança de obter informações sobre uma adega nas proximidades. Procurei o bar de vinhos da cidade depois de uma viagem de comboio de duas horas desde Veneza, onde vivi enquanto escrevia um romance. Um restaurante veneziano que eu frequentava servia-me um Pinot Grigio de uma região italiana chamada Friul-Veneza Júlia, situada a leste, perto da Eslovénia, ou pelo menos foi assim que o empregado a descreveu. O vinho, feito por uma pequena adega chamada Venica, estava tão delicioso que resolvi visitar a região. Há 25 anos, esse era o único propósito da minha viagem até Cormons. Eu não estava à espera de fazer uma descoberta profunda. Não estava à procura de mudar a minha vida.

O bar de vinhos, que também funcionava como centro de visitantes da cidade, estava surpreendentemente lotado àquela hora. Os clientes eram turistas italianos e austríacos, juntamente com vários homens de rosto avermelhado e mãos grossas, que julguei serem agricultores, antes de perceber que eram produtores de vinho. Eu era o único americano na Enoteca, mas perdi-me facilmente na agitação de mulheres com casacos de peles e homens que já tinham bebido um pouco demais, enquanto os seus cães rondavam pedaços de presunto no chão.

Os vinhos em oferta eram das vinhas de Cormons – a maioria dos vinhos tinham produções reduzidas, eram desconhecidos do mundo exterior. Alguns ostentavam rótulos com nomes eslovenos: Keber, Prinčič, Picéch, Drius, Magnàs. Pedi a uma das baristas um copo de Venica. Não, explicou ela em italiano – essa adega ficava em Dolegna, a 13 quilómetros de distância. A Enoteca servia apenas vinhos locais. Mas depois serviu-me uma taça de um pequeno vinicultor chamado Edi Keber que vivia a poucos quilómetros de distância.

Adega de Relais Russiz Superiore

Barris de vinho na adega de Relais Russiz Superiore, uma pousada em Friul, Itália.

FOTOGRAFIA DE BERTHOLD STEINHILBER, REDUX

Era um vinho branco composto por três castas obscuras: Friulano, Malvasia Istriana e Ribolla Gialla. Provei um pouco. O vinho era incrivelmente aromático, com um sabor frutado e salino, possuindo uma espécie de eletricidade mineral quando me tocava na língua. O facto de ter sido o vinho branco mais notável que eu alguma vez tinha provado parecia quase secundário em relação à revelação mais abrangente: um vinho conseguia descrever um lugar de uma forma que nenhuma palavra ou imagem conseguia.

Mas isto foi há muito tempo. Desde então, fiz da Enoteca di Cormons, e da região de Friul em geral, a minha segunda casa. O vinho é uma parte integrante da nossa relação. A presença dos Alpes no norte, o Mar Adriático no sul e as colinas ricas em minerais no meio conspiram para formar um equilíbrio natural e requintado para a experiência humana e, neste caso, para o cultivo de uva.

Passados vinte e cinco anos desde a minha primeira visita, Friul continua estranhamente com poucos turistas. Suponho que existam boas razões para isso. Por estar na fronteira com a Eslovénia e a Áustria, a sua cultura e nomenclatura não são assumidamente italianas. A sua capital, Trieste, só se tornou parte de Itália depois da Segunda Guerra Mundial.

Uma orgulhosa tradição vinícola

Friul tem ruínas romanas impressionantes e belos castelos, sem mencionar alguns dos mais importantes memoriais de guerra do país; mas carece de um museu de arte de renome mundial ou de uma torre inclinada para atrair autocarros cheios de visitantes curiosos. E embora rivalize com Toscana e Piemonte enquanto regiões vinícolas mais importantes de Itália, ambas são muito mais famosas por um motivo simples: especializam-se em vinhos tintos, não brancos.

Friul foi onde aprendi que os vinhos brancos não devem ser simplesmente bebidos – devem merecer toda a nossa atenção. Como o proeminente fabricante de Malvasia de Cormons, Dario Raccaro, me disse há uns anos, com a sua intensidade característica, “Robert, tu sai che io sono bianchista”, o que significa “Robert, sabes que sou produtor de brancos”, uma vocação da qual se orgulha. Os nomes Raccaro, Keber, Venica e Toros dominam todos os anos as competições premiadas de Itália, porque existe rigor e personalidade por detrás de cada safra.

A região também oferece os elementos necessários para expressar o território com exatidão. Enólogos como Edi Keber, perto de Cormons, por exemplo, cultivam as suas uvas em rocha marga, que produz vinhos frescos e revigorantes, vinhos que ficam bem com o mínimo de intervenção humana. Isto é ainda mais verdadeiro na aldeia de altas altitudes de Dolegna, a apenas alguns quilómetros de distância, onde a adega Venica, a que me trouxe pela primeira vez à região, produz vinhos que são sobrenaturalmente perfumados a maçã, semelhantes aos vinhos austríacos de climas frios produzidos a cerca de uma hora de distância de carro a norte.

Nas planícies de Isonzo, local de algumas das batalhas mais sangrentas da Primeira Guerra Mundial, a exposição implacável à luz do sol produz Sauvignon Blancs que rivalizam com os de Sancerre ou Marlborough. Mais perto de Trieste e do Adriático, o solo rochoso de calcário no planalto de Carso é outro universo, no qual artesãos como Beniamino Zidarich e Edi Kante têm produzido vinhos maravilhosos a partir da sua uva nativa, a Vitovska, que atingem uma elegância rochosa e, portanto, desafiam a noção daquilo que um vinho Chardonnay pode ser.

refeição local

Um copo de friulano acompanha uma refeição local de presunto, salame e queijo no Terra e Vini Osteria, um restaurante em Brazzano di Cormons, Itália.

FOTOGRAFIA DE SAMUELE PELLECCHIA, THE NEW YORK TIMES / REDUX

Visitei a adega de Edi Kante em 1998. Um génio alto e teimoso, Edi é o que os italianos chamam de un gran personaggio, uma verdadeira personagem – embora também seja generoso e tenha dedicado um final de tarde a uma extensa degustação dos seus vinhos antes de me levar a uma trattoria, ou estabelecimento gastronómico, no meio do nada, que eu nunca mais consegui encontrar. Da mesma forma, o famoso e temperamental Josko Gravner, que fermenta as suas uvas Ribolla Gialla em ânforas georgianas enterradas no solo, também me recebeu na sua adega em 2000 e depois, explicando de onde vinha artística e literalmente, levou-me a atravessar a fronteira para visitar o túmulo da sua avó na Eslovénia.

Beber da história

É pouco provável que os bianchiste da região se afastem muito daquilo que lhes ofereceu gratificação criativa, bem como alguma fama. Dos oito mil hectares de Friul dedicados às vinhas, mais de três quartos produzem vinho branco. (Na Toscana, a proporção é quase exatamente o oposto.) Mas não deve ser surpresa para ninguém que estes produtores de vinho também consigam fazer maravilhas com uvas pretas.

Há alguns anos fui recordado desta realidade, quando fiz uma viagem de 45 minutos de carro a partir de Trieste para encontrar um velho amigo no Lokanda Devetak 1870, um restaurante a cerca de um quilómetro da fronteira com a Eslovénia. A estrada secundária estreita, escura e mal sinalizada que nos leva até ao restaurante prenuncia um lugar que se mantém despretensioso e tradicional há mais de 150 anos. Mas, graças ao seu patriarca, Augustin Devetak, o estabelecimento também possui uma das adegas mais impressionantes de Friul.

Udine, Itália

Habitantes locais socializam no Versus, um bar de vinhos e café com vista para a Piazza Giacomo Matteotti e a Chiesa di San Giacomo (à esquerda) em Udine, Itália.

FOTOGRAFIA DE TONI ANZENBERGER, REDUX

Giulio Colomba estava à minha espera na nossa mesa. Biólogo de formação, Giulio é cofundador do movimento gastronómico Slow Food, que começou em 1989, e foi durante muitos anos o crítico de vinhos de Friul para o Gambero Rosso, o venerado guia anual dos melhores vinhos de Itália. Nos meus primeiros dias em Friul, encontrava Giulio em bares de vinho e restaurantes. E rapidamente adquiri o hábito de pedir o que quer que aquele homem de óculos e bigode estivesse a beber. Para alguém tão culto, eu achava-o refinado, curioso e sempre pronto para um desafio. Desta vez, eu queria que passássemos os dois uma noite a beber apenas os vinhos tintos da região.

(Descubra o cobiçado vinho que colocou a ilha da Madeira no mapa.)

Estava uma noite fria de janeiro, perfeita para carne de veado grelhada e ravióli recheado com cogumelos porcini. A chef e matriarca Gabriella Devetak estava a fazer o que faz sempre, a servir comida simples, mas deliciosa. O patriarca Augustin Devetak veio da sua adega com quatro garrafas – todas de tinto, com uma década ou mais, representando os diferentes cantos da região. Um dos vinhos era feito da uva local conhecida por Terran, que por tradição é um acompanhamento rústico de javali e gnocchi. Mas, nas mãos do produtor Beniamino Zidarich, o vinho era flexível e persistente. Ainda mais memorável era o Pignolo, um vinho de uma uva que foi resgatada da extinção há algumas décadas e que é justamente considerado a nobre resposta de Friul ao Cabernet.

Mas, para mim, o vinho tinto definitivo da região foi sempre a sua interpretação do Merlot: muito mais robusto e profundo do que a versão frequentemente enjoativa dos Estados Unidos. Naquela noite, Giulio Colomba e eu envolvemo-nos numa rapsódia por causa de uma joia rubi profunda com 20 anos, conhecida por Rubrum, feita pelo produtor de voz suave Franco Sosol de Il Carpino, da aldeia fronteiriça de San Floriano, a uma dezena de quilómetros de distância. E também ficámos deslumbrados quando o primeiro gole do Merlot de Sosol desceu. Giulio, crítico de vinhos, disse simplesmente: “O vencedor da noite.”

Não seria a primeira vez que Friul me surpreendia. “Uma pessoa também podia vir aqui e, felizmente, beber simplesmente vinhos tintos”, disse eu.

Giulio sorriu gentilmente. “Pode”, disse ele. “Mas por que razão o faria?”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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