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Citânia de Briteiros: ícone da cultura castreja

citânia de briteiros

A Citânia de Briteiros representa, historiograficamente, a mais prestigiada das estações arqueológicas da cultura castreja do Noroeste da Península Ibérica.

Texto: Armando Coelho Ferreira da Silva

Contando com referências escritas desde meados do século XVI, o seu estudo foi iniciado por Francisco Martins Sarmento no último quartel do século XIX, que a revelou à comunidade científica por ocasião da I Conferência Nacional de Arqueologia, realizada em Guimarães em 1877, e da visita de congressistas participantes no IX Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Histórica que teve lugar em Lisboa, em 1880.

As companhas arqueológicas de Martins Sarmento (1875-1884) foram retomadas sistematicamente por Mário Cardozo (1935-1968), tendo sido aí realizado por nós (em colaboração com R. Centeno) um corte estratigráfico em 1977 e 1978, a que se seguiram outros trabalhos sob a direcção de Francisco Sande Lemos e Gonçalo Cruz.

estátuas

Estátuas de guerreiros castrejos encontradas por Martins Sarmento e em contexto de reutilização em Vizela e em Fafe. Completas, deveriam ter 2,40m a 2,60m.

Localizada no monte de São Romão, no concelho de Guimarães, num esporão do maciço orográfico da serra da Cabreira, sobre o vale do Ave, distingue-se por ser dotada, como outros povoados fortificados de grande dimensão, designados como citânias, de um forte sistema defensivo e um ordenamento proto-urbano típico destas “cidades castrejas”. Com uma área  de  cerca  de 20 hectares, é protegida por quatro ordens de muralhas e as zonas escavadas mostram numerosos quarteirões que enquadram unidades de famílias extensas (um deles com designação interpretativa latina de domus), revelando a originalidade das características indígenas no dispositivo topográfico da povoação, no alinhamento das muralhas, na planta circular das casas, no processo da sua construção e na decoração com motivos geométricos.

Poder-se-á considerar mesmo como protótipo da cultura castreja do Noroeste peninsular, com traços culturais havidos como célticos, aí denunciados linguisticamente pela onomástica local, sobretudo referente aos patres familias dos núcleos domésticos, dos oleiros e dos dedicantes votivos gravados em numerosas inscrições.

Um importante edifício de planta circular, com 11 metros de diâmetro e bancos de pedra ao redor do muro, permite interpretá-lo como local de reunião de um conselho de anciãos, quadrando bem com a organização dos povos castrejos.

castro-tipo

Reconstituição de um castro-tipo. Ilustração Anyforms Design.

O monumento mais celebrado, porém, é a sua “Pedra Formosa”, como tal identificada no século XVIII pela sua notável riqueza decorativa, e que foi objecto de interpretações diversas mas que, agora, se sabe fazer parte de um balneário castrejo, cujas ruínas foram entretanto localizadas. Sendo similar à de outro monumento congénere descoberto na citânia em 1930, em bom estado de conservação, composto ainda de átrio com tanques, antecâmara e câmara separadas por estela decorada, e um forno, estas singulares construções reproduzem o esquema característico deste tipo de edifícios conhecidos na região, que eram tradicionalmente considerados como “fornos crematórios”, postos em relação com as práticas funerárias castrejas, mas que hoje se interpretam como monumentos para banhos de vapor, de tipo sauna, próprios dos rituais de iniciação das comunidades indígenas.

Com ocupação característica da última fase da cultura castreja, com datação entre o século I a.C. e o fim do século I d. C., em que terá sido “lugar central” de uma subunidade dos brácaros (Bracari), porventura os avici, “Os do Ave”, insinuados por dois registos locais deste etnónimo e em razão da proximidade a esse rio, numerosos materiais, tais como inscrições latinas, moedas da República e do Império, fragmentos de cerâmica importada (terra sigillata), vidros e outros evidenciam uma forte influência da romanização neste povoado, relacionável com a fundação de Bracara Augusta, que fica nas imediações.

Um cemitério cristão apela a uma reocupação medieval, sagrada, do sítio, consagrado pela construção moderna de uma capela dedicada a São Romão, evocativo da dominação romana. Aconselha-se a visita prévia ao Centro Interpretativo local e ao Museu da Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, e ao Museu da Cultura Castreja em São Salvador de Briteiros, que acolhem o espólio arqueológico da citânia.

mapa

Citânia de Briteiros

Estrada Nacional 309, km 55, Salvador de Briteiros

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